Chaka, personagem marcante do Terra de Passagem

chaka

Escrever sobre Chaka foi um desafio à parte. Ele é um personagem intenso, forte, convicto as ideias e interesses do pai, Foulah, um rico mercador de escravo. Após a destruição do Forte na África e a morte do pai, Chaka é levado cativo como escravidão ao Brasil e vendido a fazendo Santa Rosa em Minas Gerais.

Acompanhe duas páginas do Terra de Passagem:

Chaka, Minas Gerais, Brasil, 1830;

Chaka chegou à fazenda como uma mercadoria qualquer, no comboio que três dias atrás trouxera, além dos escravos, sal, tapeçarias, tecidos e temperos.

Lembrança da mais recente tentativa de fuga, o sangue coalhado que descia da sua cabeça já estava atraindo moscas. Foi o zumbido delas misturado à aos gongos que soavam em sua cabeça que o acordaram ainda no meio da noite, com olhos ardendo em brasa.

Se ardiam de ódio ou de febre, Chaka não sabia.

Desorientado, ainda sem lembrança de onde estava, tentou se mover. Suas mãos e braços estavam presos por uma barra metálica. Seu pescoço, enlaçado por uma coleira que era mais ferrugem do que ferro, estava preso à parede de maneira que obrigava o escravo a se manter sentado em uma postura ereta. A tensão fazia doer os músculos do pescoço e das costas. Quantas horas ele já teria passado assim preso desde o golpe que lhe causou o desmaio? Ele não conseguia ver o céu para contar.

A saliva quente fazia pouco para aplacar a sede que sentia. Entre a dor e a raiva, respirava com dificuldade, mas em silêncio. Os outros cativos, formas inertes e sombrias naquele recinto já escuro, ou não perceberam que Chaka havia acordado – afinal, a noite ia alta – ou fingiram não perceber. Saberia, depois, do receio que tinham de se envolver com um negro que já havia chegado à fazenda com a fama de encrenqueiro – e também do apelido que havia ganho em meio à Senzala. Foram necessários 5 negros de engenho para carregar esse João-dois-metros até seu cativeiro atual.

Foi em um vale atrás de dois grandes morros, em uma terra fértil cheia de árvores frutíferas que começou a história de Chaka no Brasil. Na fazenda Santa Rosa havia 100 escravos nascidos durante três gerações de cativeiro. Para garantir que a próxima geração de trabalhadores braçais continuasse forte e produtiva, João Baldério, atual chefe da Casa Grande, havia comprado mais 30 escravas parideiras. Os demais negros trabalhavam ora produzindo comida ora cachaça, que, vendidas para o abastecimento da colônia, tornaram Santa Rosa uma das fazendas mais importantes da região das Minas.

Os Baldério, aristocratas portugueses, vieram para o Brasil no ano da graça de nosso senhor de 1730, época em que ganharam 30 mil hectares das terras colonizadas pela Coroa. Ao longo dos anos, conseguiram se firmar como respeitáveis negociantes de escravo, e com o tráfico negreiro obtiveram um suntuoso lucro. Junto dos escravos, a família aproveitava para trazer ilegalmente manufaturas europeias, as quais trocava por mais negros nas terras da colônia, que eram revendia para fazendas de algodão ao norte do continente. Por diversas vezes os fiscais da corte estiveram para confiscar os navios da família, mas sempre foram dissuadidos por preços módicos ou chantagens bem colocadas.

Quando o passar das horas começou a abrandar a escuridão, uma das sombras na senzala se aproximou de Chaka. Era uma mulher velha, que parecia ter quase cinqüenta anos. Alta, baça e grossa de corpo, era de um povo diferente e por vezes inimigo do de Chaka, nas terras natais. Levava consigo uma cumbuca de água e tentou dar de beber a ele.

– Precisa acalmar a alma meu filho, pra restar vivo aqui não pode guardar a raiva no corpo – sussurrou.

Enojado pela piedade daquela mulher de um povo inferior ao seu e ofendido por ela ter lhe dirigido a palavra, Chaka virou o rosto, irado, preferindo manter o orgulho que saciar a sede. Em outros tempos, quando corria livre nas terras que pariram seus ancestrais, ele mesmo arrancaria a língua de qualquer velha estrangeira que o tratasse desta forma.

Com um olhar profundo e resignado, a velha molhou as mãos e limpou o rosto do rapaz cantarolando uma melodia triste na voz de seu povo. Depois de amenizar o aspecto sujo e de retirar a maior parte do sangue seco daquela pele, Luzia voltou à sua esteira de palha para esperar por mais um dia de trabalho.

O dia dos negros começava antes mesmo do galo cantar. Uns ia acordando aos outros e quem já estava de pé dirigia-se à bica d’agua. Rosária e Barnabé, duas crianças às quais era permitido adentrar na Casa Grande, iam pé ante pé até o quarto da sinhá e do sinhô recolher os penicos para depois jogar os excrementos num grande tifo de madeira. Pesado demais para as crianças, o tifo era levado pelo escravo Chico para ser esvaziado na fossa atrás do moinho.

Quebrado demais para continuar na lavoura apesar de ainda ser um rapaz moço de 15 anos, Chico era responsável por manter as latrinas e penicos limpos. O cheiro azedo que ele exalava graças ao contato diário com a merda dos brancos fazia com que ele fosse um rapaz de poucos amigos, tímido, triste e passivo, que quase nunca pronunciava alguma palavra. Chico nasceu escravo, filho de uma negra parideira. Tentou fugir aos 13 anos mas foi capturado, tendo o tendão da perna esquerda cortado para que, manco de uma perna, não tentasse mais fugir. Com a perna ainda sangrando, tomou 50 chibatadas amarrado no tronco. Chico era um dos exemplos de Sinhô João. Depois dele, nenhuma alma escrava daquela fazenda ousou fugir além de em pensamento.

Depois de comer o cozido de mingau de milho com charque de vento – que era mais pele de porco do que carne seca – os negros formavam grupos e iam enfileirados para seus afazeres. Uns iriam ajudar nos afazeres domésticos comandados por Luzia, outros iriam para a roça cuidar das plantações sob a supervisão de negro Manoel, filho do capataz Diogo Bravo. Havia também que cuidasse dos animais sob as vistas do áspero Bené, cuja amizade com Diogo lhe rendia algumas regalias como o acesso à casa das parideiras. Debaixo da sombra do capataz estavam os escravos que trabalhavam na produção da cachaça – a atividade mais importante e mais vigiada da fazenda.

Foi por volta das 15 horas que Chaka recebeu a primeira visita de seus captores. Luiz Eduardo Baldério, feitor e próximo na linha de sucessão da fazenda era atarracado e forte pra seus vinte e poucos anos de idade. A barba espessa e preta, herança de seus antepassados portugueses, emoldurava um rosto quadrado, duro, e vermelho de sol. Ele entrou na senzala acompanhado de Diogo e Bené.

Analisou o escravo. O apelido João-dois-metros havia lhe parecido um outro exagero dos capatazes, mas Luiz Eduardo se viu de fato diante de um negro robusto e forte o suficiente para aumentar a produtividade da casa das caldeiras. Enquanto o sinhozinho dava ordens, Bené se aproximou de João e sussurou perto do ouvido deste:

– Aqui não se tem moleza; preto inteligente é preto obediente, manso e calado. Se você me obedecer, vou cuidar para que você não morra. Ouviu bem, Chaka?

Chaka tentou não demonstrar a surpresa que sentiu ao ouvir seu nome na boca de um desconhecido. Ele procurou em sua memória alguma lembrança daquele homem, mas o coronel logo se aproximou e com uma chibata avaliou as pernas e os ombros de sua nova aquisição, parando sua ponta no queixo altivo do rapaz.

– Tenho ouvido estórias sobre você escravo. Rebeldia é algo que não tolero.

Ante o olhar cortante do escravo, o coronel levantou e perguntou ao capataz à sua esquerda.

– Ele compreende o que eu digo Diogo?

– Sei não senhor patrão. Mas se não entender agora vai aprender a entender – disse e estralou o chicote no ar.

– Abra a boca dele Diogo, quero ver se seus dentes são tão fortes quanto o resto do corpo.

Enquanto Diogo se aproximava, o cativo acorrentado cerrou os dentes em desafio e tentou avançar ignorando as correntes que o prendiam. Num piscar de olhos, o chicote de seis pontas picou o alto das costelas de Chaka com seus agudos triângulos de ferro, arrancando sangue. A dor, repentina e aguda, fez-lhe gritar.

O capataz não teve mais problemas em examinar os dentes daquele negro. Satisfeito, o coronel Luiz Eduardo deu ordens para que ensinassem a João-dois-metros as regras da casa, começando com 30 açoites em dias alternados, pena que só acabaria depois de domada a fera. O sinhozinho saiu com passo leve, deixando seus comandados para trabalhar.

– Bené chame Cristóvão e Joaquim para ajudar a colocá-lo no tronco. Aproveite que é hora do almoço e reúna todos para acompanhar a coça.

Bené seguiu as ordens de Diogo Bravo sem olhar para trás.

Cahka foi despido dos poucos panos que o cobriam, dominado e amarrado ao tronco – um pedaço retangular de madeira posto no pátio exterior à senzala. Apanhou de um chicote com pontas de couro duro e torcido, conhecido entre os portugueses como bacalhau.

Revoltado, ele tentou se levantar e quebrar os grilhões que o prendiam, mas estava muito fraco de fome, da sede e da perda de sangue. Quando fechava seus olhos, via cenas incompletas da aldeia paterna sendo invadida, na África, momentos em que esteve consciente no navio negreiro, as súplicas da mãe enquanto lutava para não ser marcado a ferro no rosto com o símbolo da fazenda e os gritos de Njeri, sua irmã mais nova, sendo comprada e levada pela praça em Salvador.

Nas memórias, o cheiro de sangue fresco se misturava à figura de sua mãe sendo puxada pelos cabelos em direção a um comboio. Antes de cair totalmente na escuridão que começava a tomar conta de si, Chaka visualizou o sorriso sarcástico no rosto magro e encovado daquele que foi o grande traidor da sua família. Durante anos Capitão Moura foi um dos maiores compradores dos negros conquistados e escravizados por seu pai.

Foulah, grande como ele e muito mais sábio, tinha ensinado ao filho que as outras tribos da terra natal eram seres desprovidos de inteligência, criados pelos deuses apenas para servirem aos mais fortes. Assim que pegou sua primeira caça sozinho, Chaka começou a acompanhar o pai e seus guerreiros nas incursões que faziam para capturar servos. Aprendeu a encontrar e a demarcar os locais onde as outras tribos viviam e a fazer emboscadas e cercos.

Sangrando amarrado sob o sol a pino, lembrou das aldeias queimadas, ouviu os choros de mães que imploravam misericórdia por seus filhos, do grito das moças que eram tomadas pelos guerreiros, do pedido dos idosos que, inúteis, eram deixados com as gargantas abertas. O peso de suas correntes o fez lembrar da irritação que sentia quando os capturados se moviam devagar demais, indo em filas indianas com pernas e pés sem força para a servidão até a morte. O riso de seus captores se misturou em suas memórias ao rosto orgulhoso de seu pai, que após cada expedição bem sucedida colocava as mãos em seus ombros, parecendo luminoso com a ideia de que um dia o filho tomaria  liderança da tribo e dos negócios.

Após o cumprimento da pena, Chaka foi levado de volta à senzala. Suas costas inchadas e cheias de cortes pareciam as de um monstro saído de algum conto infantil, e não de uma figura humana.

Foi jogado no chão e acorrentado novamente. Desta vez, lhe acorreram três escravas para iniciar a limpeza de suas feridas – dentre elas Luzia. Água, sal, vinagre e pimenta era tudo que tinham para cicatrizar aquela pele antes da próxima rodada de punições.”

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Romanceando em uma terra de passagem

Romanceando em uma terra de passagem

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Terra de Passagem: África, 1830. Foulah, um mercador de escravos da elite africana presencia seu forte na costa da África ser atingido e destruído por canhões britânicos e ao tentar pedir ajuda a seus aliados e clientes lusitanos, é morto e sua família levada cativa e vendida como escravos no Brasil. O maior desafio de sua esposa Gimbya e de seus filhos: Chaka, Sule, Keita e Njeri será sobreviver ao sistema que antes defendiam.

Terra de Passagem irá fazer aniversário de cinco anos, no próximo dia 29 de Março. Me lembro do dia que tive a ideia de escrever algo sobre as histórias ocorridas durante a escravidão no Brasil. Estava morando em Salvador e iniciei uma verdadeira jornada entre livros especializados no assunto, minhas visitas eram frequentes em museus e locais históricos, tive oportunidade de conhecer o Quilombo de Palmares, minha segunda casa foi durante meses o Arquivo Público de Salvador. Após alguns meses de contatos com historiadores , conheci a minha co-autora Noane Souza, excelente pesquisadora do assunto com pós em história, começando assim, uma rotina de planejamento do roteiro, datas históricas, fichas de personagens, leituras incansáveis…

Tudo preparado, rascunhos e páginas inteiras mas…. não me sentia madura para publicar. Mantive o meu Terra de Passagem guardado em uma pasta, silenciado pela minha autoritária editora interna até esse ano.

Meu objetivo é vencer minha autossabotagem, e ser uma escritora capaz de transmitir com excelência boas histórias.