Rotina

Sim, assumo. Troco palavras, leio sinônimos em vez de antônimos, troco vírgula por dois pontos, crio acento grave no lugar de agudo, chamo o circunflexo de TIL, sinto-me culpada por editar sempre o que escrevo e mania de louca de ter dedos nervosos e impulsivos.

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Mais um caso é um pequeno texto escrito durante um exercício de criação de contos.

MAIS UM CASO ou 30 anos de alma

Gostava do vento batendo nos cabelos, gostava do sorriso da irmã quando brincavam de esconde-esconde, gostava de imaginar que era uma caçadora de tesouros perdidos. Entretanto o que mais amava era seu pai.

Tinha fascínio pela figura alta, delgada e sábia que emanava naquele homem. Diferente de todas as garotas de sua idade, ela o seguia por toda parte. Seus pequenos passos eram numerosos e apressados ao acompanhar o pai pela lavoura.

Com apenas 6 anos tinha o conhecimento para avaliar se a terra era boa ou não para plantar alguma coisa.

– Pega isto para mim filha?

E pegava, mesmo sendo graveto, gravetinho ou gravetão.

A casa era nova para sua família, mas velha de anos. A madeira exalava um odor fétido quando chovia, sorte deles que era verão.

Para os pais, o lugar era uma marco, um inicio, um recomeço pós tragédias que preferiam esquecer. Lembrar doía na alma e no coração.

Aquela era uma noite de terça feira incomum, e ela tinha olhinhos atentos pois a situação era de medo e angustia. Tinha dificuldades em respirar e engolia o choro que teimava com ela. Mesmo assim era atenta a qualquer movimento do pai e viu quando ele saiu de casa sob as pontas dos pés, viu quando ele prendera a respiração ganhando coragem ao cruzar o quintal e pular  estrategicamente a cerca de arame.

Precisavam de água. Era fato.

Ela estava com muita sede mas seus seis anos completos de corpo e pelo menos 30 anos de alma não deixava transparecer para sua mãe que chorava com sua inquieta irmã nos braços, balançando de um lado para o outro.

O pai por sua vez engolia saliva para amenizar, a visão embaçada e o suor caindo, ora por nervoso, ora por calor.

“Precisamos de água” – Era o que repetia para si o tempo todo já convencido de que o poço artesiano do seu bruto e ignorante vizinho de fronteira era a melhor chance que tinham na região. Ou arriscava ou morriam de sede.

E tudo que se sucedeu aconteceu muito rápido.Enquanto enchia o balde  não notou aqueles homens sem sorriso na boca com grandes armas vindo em sua direção, só ouviu o grito de longe de sua filha:

– PAIIIIIIIIIIIIII – Gritou estridentemente

E o pai, esquecendo a água passou a correr.

– Pelo amor de Deus, só queremos água. – gritou a mãe desesperada. – Corre, pelo amor de Deus, corre.

As crianças choravam, a mãe chorava e o pai corria ofegante.

– Pelo amor de Deus é só água, é só água….

Um cachorro surgiu da escuridão, seus olhos vidraram na pequenina que apreensiva preparava-se para ir atrás do pai, mas sua mãe foi mais rápida e em um relance deixou a menor na cadeira da varanda, pegou a enxada e bateu no cão que ferido recuou, e com um intuito protetor característico de todas as mães, feri-o mais ainda fincando a enxada em seu rabo, partindo-o.

Os homens aspiravam raia partindo para vingar o ato, foi então que o pai chamou a atenção após uma pedra muito bem lançada na cabeça de um dos homens. Feito isso correu para o milharal.

E a criança que amava o pai, idolatrava seus passos foi-se atrás. Correu, correu. Enfrentando o frio, o vento, o chão empedrado que machucava seus pezinhos. Naquela noite não tinha medo de cobra, do escuro nem bicho papão.

Só queria seu pai.


NOTA: Era para ter escrito um conto infantil durante o exercício. Mas como foi um exercício em dupla, minha parceira acabou me contando um trecho da infância dela dando-me inspiração para criar algo baseado em fatos reais.